
A Comunidade Virtual Escrevendo o Futuro convidou Ana Helena e Sônia Bertocchi para um bate-papo sobre o Congresso de Tecnologia Educacional Aplicada à Sala de Aula, realizado em Brasília em 7 e 8 de outubro, do qual ambas participaram como palestrantes, representando o Cenpec e o EducaRede.
A conversa informal revelou muitas informações e reflexões sobre um assunto controvertido: o uso, na educação, das Tecnologias da Informação e da Comunicação - as chamadas TICs, ou seja, as redes de televisão e de computadores utilizadas em conjunto ou separadamente para a partilha de informações entre indivíduos ou entre grupos de pessoas.
O bate-papo transcorreu animado! Vejam um resumo da conversa.
CV – Vocês poderiam começar dizendo o que é o evento, quais suas finalidades.
Sônia: O Congresso de Tecnologia Educacional Aplicada à Sala de Aula é uma etapa de um evento anual promovido pela Interdidática que já acontece há alguns anos. Neste ano, houve uma parceria entre o governo do Distrito Federal e a Interdidática (empresa especializada em materiais educativos) para realizar uma formação sobre o assunto com toda a rede de professores do Distrito. Então, esses professores estavam lá, todos eles. Eram 2.900.
Anna Helena: Havia um certo rodízio para a participação desses professores no Congresso, um cronograma por conta do turno em que os professores lecionam.
Sônia: Sim, num primeiro momento de cada um dos dias, mais ou menos 2000 professores do Ensino Fundamental I e II eram reunidos num auditório grande, para a abertura oficial do Congresso e uma palestra sobre a sociedade da informação, era do conhecimento e tecnologias. Depois, os participantes iam para os auditórios que eram quatro, com mais ou menos 500 pessoas em cada um.
Anna Helena: Nesses auditórios aconteceram as palestras de contextualização, para reflexão sobre o momento cultural que estamos vivendo.
Sônia: Nós fomos pensando que o público já estivesse informado sobre o assunto e quisesse ouvir relatos de experiências, mas, na verdade, vimos que eles queriam mesmo era aprender sobre o uso de tecnologias em educação.
Anna Helena: Foi uma experiência que mostrou que esse assunto ainda precisa ser muito discutido... Mesmo no Distrito Federal, onde o acesso à Web é facilitado, o conhecimento, a familiaridade dos professores com as tecnologias é ainda pequena. Então a gente pode generalizar para a realidade do Brasil...
Sônia: Retomando, então, o Congresso tinha como objetivo a formação, mas não tinha espaço para a prática porque não havia laboratório de informática para todos os participantes. Mas soubemos que, para o próximo ano está se pensando em organizar melhor essa parte do acesso aos computadores. Então, tivemos que falar apenas, fazer palestras. A Lia, que é responsável pela Informática Educativa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, também falou do trabalho agora, desde o ano passado: mostrou como organizou, como é que São Paulo entende está trabalhando tudo isso. A Milada Tonarelli, nossa companheira no Cenpec, falou sobre o aprender em rede mais conceitualmente e mostrou uma comunidade.
Anna Helena: Então, a Sonia e eu fizemos juntas a mesa. A Sonia começou contextualizando um pouco...
Sônia: Eu queria falar sobre letramento digital, porque eu sabia que havia uma expectativa muito grande dos professores em relação a isso. Creio que eles pensavam algo assim “Será que eu perdi o bonde?”, “Será que eu consigo entrar agora?” Acho que isso acontece porque a Internet chegou a toda, trazendo toda essa metodologia nova e o professor fica meio perdido.
Anna Helena: É uma angústia isso, não?
Sônia: Existe um material que apresenta uma evolução rápida das tecnologias de uma maneira interessante. Eu apresentei esses dados na palestra. O material fala de uma pesquisa sobre o tempo que as tecnologias demoram a atingir as pessoas. São, em média (considerando as invenções mais antigas), 30 anos para atingir 50 milhões de pessoas. A eletricidade foi inventada em 1873, demorou 46 anos para chegar a 50 milhões de pessoas. O automóvel demorou 36 anos. As invenções recentes chegam muito mais rapidamente a 50 milhões de pessoas: o celular, por exemplo, levou 13 anos. Há muitas outras tecnologias, como o micro-ondas, que aparecem nessa pesquisa. Então, as pessoas vão se acostumando mais devagar ou mais rápido com essas tecnologias. Eu, por exemplo, não sei ainda programar o micro ondas direito... E o celular, eu só uso o básico.
CV: É assim mesmo, a gente não se apropria de tudo ao mesmo tempo.
Sônia: Fiz essa reflexão com os professores para mostrar que a Internet, depois de quatro anos, já havia atingindo 50 milhões. E que no ano passado já era um bilhão de pessoas usando. Então, considerando esses números, o que eles nos dizem: que a Internet está numa fase embrionária, que ela ainda vai evoluir muito.
Anna Helena: O potencial de evolução é incrível!
Sônia: Isso mesmo... Vendo dessa forma, ninguém perdeu nada, estamos só começando, é um estágio embrionário. Disse aos professores que, de uma perspectiva histórica, a internet é uma menina, praticamente um bebê. E que essa era a motivação para todos perceberem que ainda é tempo de alcançar o bonde...
Todos: Ainda bem!
Sônia: Depois fiz uma classificação sobre os usos da Web com base em um artigo, “A terceira geração da Web”, que saiu publicado na Revista Época, acho que em abril de 2007. A classificação começa nos anos 90, o primeiro momento da Web, em que a Internet era uma grande biblioteca digital para buscar informações. Era uma grande biblioteca e o seu atrativo era essa quantidade imensa de informação mesmo e a possibilidade de rapidamente obter essa informação. Muito importante, ainda é muito importante... Para demonstrar, brinquei, falei da resistência, dando um exemplo meu. Eu não sei fazer bolinho de chuva, mas adoro bolinho de chuva. Eu esqueço como faz aquela massinha, são três coisas que vão na receita e eu esqueço! Então, eu vou ao computador cada vez que quero fazer bolinho de chuva ou panqueca. Esse é um exemplo do funcionamento como biblioteca, com milhões de informações sobre coisas que não sabemos ou potencializam as informações que já temos. Esses primeiros tempos foram os anos dos grandes provedores, AOL, UOL, Terra, Yahoo, Hotmail. Na época eles eram os manda-chuvas da história. É, como diz o artigo, o momento da web 1.0.
CV: Os portais. Chama portal exatamente porque é uma entrada para muitos espaços de informação, os grandes depositários, vamos dizer assim.
Sônia: Nesse primeiro momento o internauta é só um grande espectador de tudo isso, pode consultar, mas a interação é pequena, não pode postar. Depois você tem o segundo momento que é a web 2.0, que é o hoje. É um momento em que você deixa de ser só o espectador, o buscador e passa a também a ser um produtor. Aí surgem as ferramentas para você interagir, o Chat, por exemplo, o compartilhamento. Também é o momento da escrita colaborativa e aparecem muitas oportunidades para publicar na internet, blogs, fotos etc. e tudo é gratuito. E quando as coisas são gratuitas, a gente fica desconfiando, não é? Bem, não expliquei que é gratuito porque tem a publicidade que sustenta, não daria tempo... Mas falei da Wikipédia que é um símbolo, vamos dizer, dessa web 2.0 em que você pode colaborar. O terceiro momento é chamado de web semântica, é o futuro, onde o computador vai procurar coisas para você sem você pedir! Eu acho que esse momento já começou, eu ia para Brasília, fiquei uns 15 dias trocando mensagens com o organizador do evento e começaram a aparecer na página do meu provedor de e-mail endereços de hotéis em Brasília, agências de viagem em Brasília...
CV: Tudo em Brasília. É por isso que é gratuito.
Sônia: Então vai ser mais ou menos isso, a web 3.0: os navegadores, os programas ajudam o internauta a navegar. Essa é a idéia da web semântica, que auxilia, dá um suporte para o navegador encontrar o que quer a partir de informações que ele mesmo coloca na web.
CV: Ah, aí é a publicidade implicada em todas as nossas ações na web... É o computador meio que pensando com você. Então, fulana precisa de informações sobre o planeta, eu vou ajudá-la. Olha que generosos!
Sônia: Essa é a web semântica que trabalha com indexação, com as tags e aí a coisa extrapola um pouco. Eu tenho um blog no Blogger. Quando eu vou para o Blogger é a mesma coisa, o mundo está sabendo que eu vou a Brasília. Espero que o provedor não leia o conteúdo dos e-mails. A mensagem em si, o asterisco, ele não abre.
CV: A gente espera que não mesmo! É um pouco angustiante.
Sônia: Na web, ao mesmo tempo em que você tem a facilidade de conectar com todo o mundo, você tem mais gente te olhando. Mas é mais ou menos como andar na rua, se eu ando na rua, estou viva, estou exposta. Mas tem muita gente que desenvolve uma relação um pouco tensa com isso, parece que dá mesmo uma certa angústia.
Anna Helena: Eu até comentei isso lá no segundo dia, quem vai dar a dose da exposição, a medida da exposição, é você, é o internauta.
Sônia: É você mesmo.
CV: Como é na vida.
Sônia: Esse terceiro momento tem a ver com as redes, com a construção das redes. Eu adoro fazer parte das redes, aprender, conhecer e passar o que sei. E quem vai dar o tom da conversa, dizer o quanto quer que saibam de si é a pessoa, é ela mesma. Então, eu não consigo ver uma ameaça, uma invasão. Vejo como uma nova ferramenta.
CV: Que você tem que saber usar!
Sônia: Então, para onde é que a gente caminha agora? A gente caminha para ter redes que funcionam como nichos, numa alusão à publicidade que trabalha com nichos de mercado, isto é, espaços onde os consumidores têm necessidades específicas. Então, como nichos, elas seriam relativamente fechadas, o acesso seria para poucos, um pequeno universo de internautas com necessidades específicas, como alguns sites onde você coloca seus dados profissionais. Mas todos esses sites que implicam em interação foram criados com base naquelas agências de casamento, onde os candidatos davam uma foto e um perfil para arranjar casamento. Na palestra em Brasília, quando falei das redes, falei do Orkut, desses sites que oferecem espaço para publicação de currículos profissionais e que mostram com quem os cadastrados se conectaram no dia. Isso não é uma fofoca porque tem a ver com o mundo corporativo. Então, são informações importantes. O objetivo ali é que as pessoas vejam o que eu estou fazendo profissionalmente, você pode encontrar colegas que se formaram com você, ou pessoas com quem já trabalhou. E é você quem decide quais dados seus podem ser vistos e por quem podem ser vistos. Nesse tipo de site, você não pode publicar nada mais, nem fotos, nem textos.
CV: Sônia, retomando, você falou em três instrumentos de comunicação na web: pesquisar, comunicar e publicar.
Sônia: Sim, e foi interessante como a Anna Helena encaixou a fala dela nesse momento, mostrando como a Comunidade Virtual Escrevendo o Futuro passou pelos três momentos.
Anna Helena: É mesmo, passamos por esses três momentos. Quando começamos a comunidade, ela era basicamente um espaço de pesquisa. Qual era o nosso movimento? Oferecer conteúdo para professores que ensinam leitura e escrita. Então, expliquei para os professores como nós fomos sentindo que era preciso ampliar e já quando montamos os cursos colocamos blog para o professor colocar as tarefas por escrito, abrimos o Fórum e o Mural na Sala de Leitura para essa comunicação acontecer. Um pouco mais tarde, criamos as Oficinas Pedagógicas, onde o coordenador pedagógico da escola usa um material publicado para alimentar suas reuniões e depois publica relatos sobre essas práticas. Agora, temos o Nosso Blog como nova seção de interação com os participantes, e mais outra, a seção Na Prática, em que professor pode colocar suas experiências de trabalho.
CV: Nos primeiros cursos da Comunidade já havia bastante espaço para interação, eles não eram só de marcar x...
Anna Helena: Sim, em nossos cursos há aquela coisa de o aluno escrever respostas abertas, que são orientações para professores menos experientes, são textos que exigem autoria de quem escreve, não basta copiar e colar... Então, o mediador precisa analisar as respostas abertas, é o que o nosso mediador faz. Ele lê o que é publicado, interfere, orienta, faz uma síntese das respostas dos alunos e a pessoa tem uma resposta para o coletivo da qual pode tirar conclusões. Esses cursos foram resultado de muito planejamento, para escapar daquela coisa automática de marcar x em respostas que o próprio programa pode contabilizar. Então a gente já tinha tudo, pesquisa, interação e publicações, num espaço menor. Agora estamos tentando passar isso para a Comunidade como um todo, foi interessante demonstrar como aqui na Comunidade fomos usando os três instrumentos...
Sônia: É interessante a gente perceber que é assim, mesmo a web 1, a web 2... E logo mais a web 3.
Anna Helena: Fui procurando explicar para os professores que as coisas vão acontecendo, mas não há uma superação, há uma articulação entre os três instrumentos: a pesquisa, a interação e a publicação com autoria. Isso não quer dizer, então, que agora não é mais para pesquisar ou para interagir. É para pesquisar e interagir, a ênfase é a articulação. O movimento não é de superação dos primeiros instrumentos, mas é de incorporação.
CV: Eles se complementam. E, pelo entusiasmo das duas palestrantes, parece que o evento valeu a pena! Agradecemos a presença e a partilha desses momentos!
Data: 06/11/2008
