Maria do Disterro dos Santos
Colégio Estadual Alfredo Nasser
Britânia - Goiás
Foi com entusiasmo que consegui motivar meus alunos, levando-os a acreditar que seriam capazes de aprimorar competências de leitura e escrita e produzir belas crônicas. Eu passara a fazer parte do grupo de professores que estaria Escrevendo o Futuro da educação brasileira em mais uma Olimpíada de Língua Portuguesa.
Com o Caderno do Professor em mãos percebi a grandeza do programa e pude vislumbrar as contribuições desse trabalho para o processo de crescimento intelectual, afetivo e social dos educandos. A essência do Projeto extrapola os aspectos cognitivos do ensino de gêneros. O tema ‘O lugar onde vivo’ nos remete a possibilidades de discussão e construção da plena cidadania.
Um dos ‘segredos‘ da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro está no interesse que a sequência de propostas desperta nos estudantes. Logo na primeira oficina, etapa de motivar e espalhar esperanças, tratei de expor os objetivos do Projeto. Afinal, ninguém se interessa pelo desconhecido.
Feito isso, mergulhamos no universo espetacular das crônicas e na ousadia de escritores como Fernando Sabino, Armando Nogueira, Paulo Mendes Campos, Machado de Assis, Moacyr Scliar e Ivan Ângelo, que embalaram o imaginário dos alunos, mostrando um mundo surpreendente, cheio de humor, ironia, lirismo, surpresas. Com esses mestres e suas obras realizamos viagens incríveis, que somente a leitura pode proporcionar.
Dessa forma os alunos aprenderam que “nada de grande se faz sem paixão”. Na oficina Primeiras Linhas, já munidos desse sentimento, expressaram suas opiniões sobre situações pacatas do nosso cotidiano que, de repente, ganharam vida. As histórias do mendigo Itapira e do pescador-filósofo Quiel tomaram a forma da criatividade do escritor. Não foi diferente com os temas - ambientais, esportivos, sociais, culturais e educacionais - esmiuçados em folhas de papel com a fidelidade de quem passa a entender a escrita como um instrumento eficaz de comunicação, informação, entretenimento e crítica. Com as produções iniciais pude fazer um diagnóstico do grupo e planejar as intervenções para as dificuldades detectadas.
As crônicas produzidas pelos alunos conversavam entre si, colocando em evidência peculiaridades do lugar: as tartarugas em extinção ganharam atenção especial; as vizinhas fofoqueiras estiveram em alta; o Lago dos Tigres foi reverenciado; a Praça da Matriz apresentada de forma inusitada. Para o lixo nas ruas, contestação imediata; o combate às drogas, assunto tratado com responsabilidade. Enfim, as vivências vieram à tona, sob olhares criteriosos de quem procura a essência da observação de cenas comuns e descobre-se cronista.
As oficinas “Olhares atentos para o dia a dia" e "Muitos olhares, muitas idéias" foram as mais significativas e envolventes para a garotada. Na primeira, fizemos uma excursão pela cidade, fotografando tudo, principalmente situações instigantes; descobrimos detalhes, antes imperceptíveis. Na segunda, a superação de uma prova de fogo - reunir uma explosão de opiniões numa crônica coletiva: um falava, outro discordava; um teimava, outro calava. Mas com o uso de recursos tecnológicos como computador e data show a produção fluiu, deixando no ar “um gostinho de quero mais, pois é muito bom verr minhas idéias misturadas à dos colegas", como declarou a aluna Kalliny.
Dentre as diversas atividades realizadas, as que mais movimentaram o processo de ensino aprendizagem foram: as rodas de conversa, a análise de fotografias, a construção de textos coletivos, as leituras compartilhadas, a socialização e revisão de crônicas, os jogos de livre associação e as autoavaliações. Testemunhamos que uma metodologia viva, dinâmica, de diálogo e interação tem poder para contagiar os alunos. E quando eles sentem-se capazes uma barreira já é rompida, pois acima das dificuldades da leitura e da escrita, questões já culturais em nosso país, está o limite imposto pela descrença e pelo desencantamento com o conhecimento.
Durante o percurso da 2ª Edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futurp, registrei em minha memória, saborosas lembranças de minha prática docente. Vi alunos que antes repudiavam a escrita, fascinados pelo resultado de suas produções. Presenciei a turma inteira, em coro, dizendo: “Fica mais, professora, a aula está maravilhosa!, “Vamos escrever mais uma crônica coletiva!, “”Professora, olha como ficou boa a minha crônica!”. – expressões e observações que deveriam fazer parte do contexto escolar e que estão cada vez mais ausentes.
A recompensa da nobre missão de educar se concretiza no desempenho do aluno. Diante da heterogeneidade das turmas, o desafio é fazer com que todos avancem, considerando específicos pontos de partida. Homogeneidade, não alcancei, mas todos foram tocados pelo prazer da leitura e da escrita – base primordial para a busca constante de novos saberes e da efetivação da qualidade do ensino.
Participar da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro foi uma experiência única. Daquelas que nos fazem esquecer, inclusive, a modéstia. Corri muitas vezes pelos corredores da escola abordando coordenadores, professores, secretária e diretora para compartilhar as crônicas dos meus alunos – muito boas para serem apreciadas apenas no espaço da sala de aula. Agora fica o sonho de publicá-las e a convicção de que paixão, entusiasmo e dedicação realmente definem o sucesso da prática pedagógica.