Trabalho com carta argumentativa mobiliza alunos de Malhada de Pedras, no interior da Bahia,
a reivindicarem melhorias para escola
Rodrigo Shimizu
A história da professora Célia Farias Aguiar Rocha e dos alunos do 3º ano do Ensino Médio do colégio Estadual de Malhada de Pedras, não por acaso, foi uma das que chamaram a atenção durante a apresentação de práticas docentes do Seminário “A Escrita sob foco: uma reflexão em várias vozes”, realizado no final de agosto. A partir de um trabalho com cartas argumentativas, Célia mobilizou seus alunos a reivindicarem o término de uma reforma da escola iniciada em 2009 e que se arrasta até hoje.
“Há dois anos a escola passa por uma interminável reforma. A unidade tem computadores encaixotados que não podem ser instalados porque as salas ainda estão abertas e possui TVs educativas, as TVs pendrives, que também não foram instaladas. A merenda não é servida, pois a cozinha também está em reforma. Não temos uma biblioteca e os livros do acervo estão na diretoria, dificultando o contato e manuseio destes pelos alunos. Além disso, todo o entulho da obra permanece dentro da área externa da escola. A situação não se resolve e os alunos também se sentem participantes desse processo e sempre estão discutindo isso em sala de aula”, relatou Célia.
Tendo como ponto de partida as orientações do trabalho da Olimpíada de Língua Portuguesa com o gênero artigo de opinião, desenvolvido em 2010, Célia aproveitou do problema que afetava a escola para conferir função social ao trabalho com a língua portuguesa e propor a escrita de uma carta argumentativa para os alunos. “Inicialmente, fizemos uma discussão sobre toda essa problemática para que os alunos assumissem uma postura cidadã. Frente à questão pedagógica planejada e pensando na formação da cidadania, surgiram vários questionamentos desde os motivos de a obra ter sido parada até as possíveis pessoas que poderiam solucionar o problema. A discussão foi calorosa e muito participativa”, recorda a professora.
O próximo passo tomado foi definir as características do gênero carta argumentativa e desenvolver quais os argumentos seriam utilizados para a produção da carta. Individualmente, cada aluno produziu a sua própria carta. “Comecei a falar desse gênero textual e qual a situação comunicativa em que ele é usado: quando se quer fazer uma reclamação, uma reivindicação ou uma solicitação. Falei também das cartas abertas, das cartas ao leitor. E os suportes utilizados para veicular essas cartas como os jornais, as revistas, sites da internet, dentre outros, e as práticas sociais em que as cartas argumentativas estão inseridas”, relembra Célia.
Percurso: da discussão inicial a carta final
Um ponto importante do debate em sala de aula foi escolher quem seria o destinatário da carta argumentativa e como seria o processo de criação em sala de aula. “Apresentei, então, para eles a proposta de escrita: escrever uma carta argumentativa ao Governador do Estado Jaques Wagner, solicitando o término da reforma da escola. No nosso caso, a carta iria ser escrita para a autoridade máxima do estado, reivindicando e argumentando para que a reforma da escola fosse concluída. De antemão, combinamos que ao final seria escolhida, por votação, apenas uma carta para ser enviada ao governador: a que melhor representasse os anseios do grupo. Seria esse o critério da escolha. Após escolhida, iríamos fazer a reescrita coletiva da carta. Ou seja, o trabalho seria organizado em etapas: leitura, escrita individual e reescrita coletiva”, relata Célia.
Após o desenvolvimento do trabalho, a carta selecionada foi a da aluna Juliana Coelho Ferreira da Silva, que ainda recebeu as contribuições de outros argumentos de seus colegas para a produção da carta final. “Embora tenha sido difícil escrever minha primeira carta argumentativa, foi uma experiência prazerosa, pois falamos de um tema que estamos vivendo, da situação que se encontra nossa escola, com essa reforma sem terminar e com os nossos direitos não cumpridos. Aprendi que a escrita é uma forte arma para conseguirmos o que queremos. Os nossos textos já começaram a fazer efeito e conseguimos aos poucos, pequenos avanços. Mostrar nosso trabalho para outras pessoas vai ser muito bom, para que todos conheçam as nossas reivindicações”, acredita Juliana.
Resultados
Antes da apresentação de Célia no Seminário da Olimpíada de Língua Portuguesa, os alunos receberam uma resposta do governador e poucos dias antes do evento, um técnico da Secretaria de Educação visitou a escola para conferir o problema do não encerramento da obra. Satisfeita com o trabalho realizando, a professora Célia relatou: “os alunos tiveram uma tomada de posição feita com uma consciência cidadã”.
