

Recentemente, fui ao cinema para ver “As aventuras de Tin Tin: O segredo de Licorne” na maior sala de cinema 3D de São Paulo. Somado a esse dado (Tin Tin em 3D), eu sabia que a direção era do extravagante Steven Spielberg, então, é claro, não me surpreendi ao constatar que se tratava de uma superprodução, mas confesso que me incomodou. Eu sempre fui leitora das Aventuras de Tin Tin, e saí do cinema pensando me perguntando se aquele tipo de adaptação era aceitável.
Como não havia nenhuma alteração muito significativa no enredo (em relação às aventuras em que o filme se baseia), o meu julgamento se voltava automaticamente para a forma, tendo em mente dois aspectos centrais: Proposta e execução. Em termos de execução, ou seja, de efeitos especiais e qualidade técnica, não consigo encontrar nenhum problema no filme. As imagens são incríveis e o diretor explora os recursos do 3D com bastante eficácia, mas a verdade é que qualidade técnica nunca foi lá muito determinante nos meus pareceres. Então o que abalou mesmo a minha crítica foi a proposta, o conceito da adaptação.
Quem já leu Tin Tin e simpatiza com aquele traço limpo e plano do Hergé, provavelmente se sentiu um pouco desconfortável quando viu os personagens com cara de gente (os personagens foram representados por atores, mas o filme é uma animação) se materializando ali em nossa frente, e quem era fã do desenho que passava na cultura (uma adaptação dos quadrinhos também, mas de caráter completamente diferente) deve ter se incomodado por ver que o Capitão Haddock tornou-se um simples beberrão, sem manter aquele jeito rabugento de praguejar contra absolutamente tudo e todos. Pensando nesses aspectos que tanto me incomodaram, percebi que o meu principal critério de julgamento era a fidelidade da adaptação cinematográfica aos quadrinhos originais.
No entanto, esse critério não soa conservador demais? Bom, eu diria que isso depende da nossa concepção de fidelidade da adaptação. Quando um filme adquire autonomia em relação a obra em que foi baseado, dificilmente as pessoas comentarão que tais pontos não “batem” com o original, mas quando essa emancipação se dá apenas parcialmente, como ocorreu com o Tin Tin, evocamos aquela clássica crítica apegada: “o livro é bem melhor”.
No caso dos quadrinhos, a adaptação passa por um processo realmente difícil, pois o leitor estará imageticamente vinculado ao filme antes de vê-lo. Mudar a figura de um personagem, por exemplo, vai fazer todos os espectadores levantarem uma sobrancelha com ar de contrariedade. Porém, mais do que a reprodução da arte seqüencial em outra linguagem, o diretor precisa fazer uma releitura da obra, precisa conseguir captar o clima que os recursos visuais dos quadrinhos criam. Nos quadrinhos do Batman, por exemplo, podemos perceber que a principal cor utilizada é o preto, o que confere um clima sombrio às histórias, e outro fator importante é que em geral as histórias ocorrem à noite. Essa atmosfera sinistra e noturna é sempre presente nas adaptações para o cinema, caso contrário não seria possível "reconhecer" a obra original na adaptada.
Portanto, continuando com o exemplo do Tin Tin, penso que o que me mais me incomodou não foi a falta de cuidado da adaptação em relação à fidelidade da história ou das personagens, mas com a deturpação dessa identidade visual constituída justamente pela simplicidade do traço de Hergé, um cartunista mais preocupado com a movimentação dos personagens do que das paisagens, um cartunista de cores pastéis e, definitivamente, de duas dimensões. Um filme do Tin Tin em 3D nos mostra, por um lado, uma certa falta de sensibilidade estética do diretor, que parece mais preocupado em experimentar uma tecnologia nova numa obra antiga (e é claro que não podemos ignorar que quando um filme é muito esperado justamente por ser uma adaptação de alguma obra querida, muitos setores se beneficiam disso, tem bastante dinheiro envolvido) do que em propriamente compreender e recriar Tin Tin.
Se entendermos a adaptação como um tipo de tradução para outra linguagem, o mais provável é que nos frustremos sempre que uma obra original explora bem os recursos da própria forma. Cada linguagem artística tem suas possibilidades de criação, e não podemos esperar que produzam a mesma experiência estética. Ainda que uma adaptação esteja comprometida com a obra em que se baseia, é importante ter consciência de quais são os nossos critérios para julgar quais obras foram "bem adaptadas", é preciso tomar cuidado com alguns vícios de julgamento que levam mais em conta a nossa relação afetiva com a obra original do que propriamente a criação de uma outra obra a partir daquela. Quando um filme é originado de um livro, ele pode ser entendido como um objeto artístico inspirado pela criação de outro objeto artístico, mas não como um subproduto derivado do orginal.
É inegável que uma adaptação tem um compromisso com a obra original, mas ele está muito mais vinculado a um processo de pesquisa e imersão na obra com o intuito de reinventá-la do que a um processo de tradução.

Comentários
Assine o RSS dos comentários