Antonio Gil Neto
Começo esse texto sobre filmes e livros com a questão-título quase óbvia, motivadora às vezes de algumas das nossas conversas. Geralmente consideramos o livro melhor que o filme. Por várias razões: sua ideia original, podemos ser donos do próprio conduzir em nosso particular tempo de leituras, percebemos as sutilezas e os detalhes, usamos de sobra a imaginação, temos dose ampla de criar e sentir uma aura de co-autoria. E por aí vai.
Vou direto ao assunto, sem fugir da intenção. Vi o filme e li o livro. Fiquei por um tempo na dúvida sobre qual seria melhor: o original, a motivação, a inspiração ou o seu produto recriado em 3D, com direito a sentir o sonho mais de perto e em movimento, quase real. Decidi agorinha e me lanço à apreciação de vocês. Livro ou filme. Ou, filme e livro. Tanto faz. O importante é - em palavras ou no mover da sétima arte - nos adentrarmos ao mundo dos sonhos a que temos pleno direito.
A história que se corporifica em ambos é a de Hugo Cabret, menino órfão que vive escondido na central de trem de Paris dos anos 1930. Esgueira - se por passagens secretas, faz pequenos roubos para sobreviver e para consertar seu enigmático autômato. Sem ser percebido, cuida dos gigantescos relógios da estação: escuta seus compassos, observa os enormes ponteiros que dançam meticulosamente, responsabiliza-se pelo funcionamento deles. A sua sobrevivência depende do anonimato. Tenta se manter invisível. Guarda um segredo que é posto em risco quando o severo dono da loja de brinquedos da estação e sua afilhada Isabelle cruzam o seu caminho. Ainda posso dizer de incentivo imaginoso que um desenho enigmático, um caderno valioso, uma chave roubada e uma figura mecânica - herança do pai de Hugo - estão no centro da imprevisível história.
O livro inspirador é “A Invenção de Hugo Cabret”, de Brian Selznick, publicado pelas Edições SM. Ao folheá-lo já podemos nos imaginar sentado no escuro à espera do início do filme. O livro com mais de 500 páginas, traz muitas ilustrações do autor – muito próximas de um storyboard – além de reproduções fotográficas históricas.
Já em “A Invenção de Hugo Cabret,” filme de Martin Scorsese baseado no livro, é claro, a trama se dinamiza quando Hugo se encontra com Isabelle. Os dois jovens passam a investigar um mistério sobre o passado que cruzam suas vidas. Aos poucos personagens e tramas gravitam aos nossos olhos e imaginação para nos contar sobre a arte do cinema. Mais que isso: a influência de Georges Méliès sobre ela.
O longa nos leva a uma sutil aventura do passado cinematográfico, desde a invenção do cinematógrafo pelos Irmãos Lumière em 1895 - que achavam que sua traquinagem teria um interesse técnico passageiro como forma de divulgação da sua fábrica de fotografia - até os longas mais complexos para aquela época.
O filme nos diz brilhantemente que foi preciso outro francês, Georges Méliès, para dar sentido artístico à descoberta dos Lumière. Méliès vislumbrou o bom futuro daquela invenção. Com sua câmera e estúdio construído no fundo de um jardim realizou seus primeiros filmes. Todo seu talento de ilusionista se encaixa na nova técnica. Cenários de papelão e tecido, luz do dia, trajes e cenários mirabolantes, além de colorir as imagens em preto e branco foram especialidades do então mágico Georges. Suas trucagens cinematográficas bebem da literatura: Julio Verne, Grimm, Perrault. Assim é Méliès o primeiro cineasta da história. Produziu e dirigiu cerca de 500 filmes, de 1896 a 1912. Ele descobriu que o cinema poderia recriar sonhos e mostrá-los ao espectador. Este é aspecto fundamental da trama.
Penso que o cinema é arte de manipular, enganar, iludir. Bom demais. Ele nos envolve em uma história ou situação que num determinado tempo nos é palpável, real, por mais absurda que possa ser. É mesmo poderosa a sétima arte em materializer sonhos, através da manipulação de imagens em movimentos mágicos e ilusionistas.
Integram-se à ficção e em plena harmonia referências a filmes antigos. Testemunhamos em meio ao 3D “A Chegada do Trem à Estação”, um dos primeiros filmes feitos pelos irmãos Lumière que causou pleno frisson na belle époque parisiense. E mais: várias citações de filmes mudos: “Luzes da Cidade”, de Chaplin, a clássica cena de Harold Lloyd pendurado no relógio em Safety Last! e “Viagem à Lua”, o conhecido filme de Méliès. Quem diria que 116 anos depois da primeira exibição de um trem vindo em direção à plateia, agora inserida numa produção em 3D ainda seria capaz de causar comoção pela ilusão momentânea da imagem em movimento?
Sem querer ser crítico de cinema sinto no meu lado espectador a brilhante direção de Scorsese. A meu ver ele tece um resgate da figura de Méliès, com toques de um filme pensado para o público infanto-juvenil. Tudo se desamarra de uma seriedade para brincar de fazer arte e cinema. É uma celebração. Temos um Scorsese diferente, outra cor e sabor e que se deixa levar pelo 3D como brinquedo novo. Este filme é indicado para cinéfilos e curiosos de todas as idades. É uma verdadeira aula de cinema!
Concordo com os que dizem que em a “A Invenção de Hugo Cabret” temos talvez a melhor utilização de 3D até agora. Prepare-se para deliciosa viagem! Scorsese filmou com câmeras 3D ao invés de simplesmente converter o longa. Usou sabiamente a tecnologia de sobreposição de camadas, proporcionando uma experiência de imersão fantástica. No escurinho do cinema, bem à frente dos famigerados óculos escuros, dançam e pulsam lindamente em nós elementos etéreos: fumaça, vapor, neve ou simplesmente poeira da loja de brinquedos. E por entre as sutilezas de contar a história de Hugo conta a história do cinema. Somos conduzidos pelos olhos de um menino. Realidade e fantasia se mesclam. Somos espectador em sonhos.
Livro e filme realizam testemunho eterno de amor pelo cinema. Uma das frases de Méliès no filme é "Venham e sonhem comigo". Acho que podemos obedecer em ambos os casos. Teremos belos momentos em nossas vidas. Sobretudo os que amam o livro e o cinema e toda a sua arte.
Comentários
Grande abraço,
Maria Aguiar
Primeiro, obrigado pela sua presença em palavras.
Este blog é mesmo um espaço mais livre para nós, educadores tratarmos de algumas questões ligadas ao nosso mundo. Tenho um rol nas minha postagens: sobre livros, filmes, exposições, etc. Também há o espaço da produção literária e o de algumas crônicas ligadas aos assuntos que rodeiam a vida escolar. Por aí...
Apareça sempre.
Abraço,
Gil.
Que alegria receber vc por aqui neste nosso espaço de olhares e inspirações leitoras!
Pois o que vc diz aconteceu comigo também. Igualzinho. Cada um com seu valor e mérito, não é?
Agradeço sua postagem pois assim temos mais uma voz e experiência a incentivar educadores a passar por esta boa experiência como os alunos: livro com filme.
Volte mais vezes...
Abraços,
Gil.
Sou nova no pedaço.Li para meus alunos do 5ºano o livro,amamos!Ca da cap.era muito esperado e apreciado,foi uma experiência fantástica!Depo is assistimos o filme,senti uma mistura de tudo de bom entre os alunos,os olhinhos brilhavam,silên cio geral.Filme ou livro?Dúvida geral!Amamos os dois, cada um com sua especialidade,m as iguais no quesito EMOÇÃO!
Fico especialmente feliz com seu retorno...em palavras!
Saiba vc que este nosso espaço onde moram tantos educadores fica mais rico com seus escritos. Eles ganham espaços, olhares mais amplos...De Ibirapuã para a imensidão , o muito mais...
O único problema é que o espaço aqui é pequeno, não é?
Mas valeu para vc depositar o seu poema que fala da Arte, do seu poder, da sua função... Parabéns pelo escrito.
E que vc continue sempre apaixonada pela literatura.
Até o próximo encontro. E obrigado.
Muitos abraços,
Gil.
E no sangue misturado
Miscigenado
A arte faz história
Cria e recria vidas
Forma e transforma consciências
Embeleza e inquieta almas em construção
A arte é assim
Singular
Simples
Singela
Capaz de tudo
Capaz de ser o todo
A parte
A linha tênue que nos liga ao transcendental
A arte não tem cor
Ela é viva em qualquer etnia
Ela é a identidade de um povo
É a moeda com os seus dois lados distintos
É ela que serve de multidão para pouca gente
É ela o colorido que pinta o mundo.
Abraços
segue um texto meu para você:
A arte é o caminho
É o caminho para as maiorias
É o caminho para as minorias
É o caminho de todos nós,
Para podermos mostrar
Quem somos
O que pensamos
O que queremos do mundo
A arte é o grito
É o grito de horror
É o grito de dor
É o grito de amor
É o grito de clamor
A arte é também o canto
O canto do pobre
O canto do rico
O canto do aflito
O canto do negro
a emoção maior, indubitavelment e, é minha. Fico lisonjeada em fazer parte deste espaço coletivo. Sou de uma cidadezinha qualquer do interior da Bahia - Ibirapuã, mas há dez anos ensino em Itamaraju na rede pública e particular. A educação é a minha vida. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Sou apaixonada por literatura; choro, teatralizo mentalmente os textos que leio e tento motivar os meus alunos a esta prática.
Nas horas vagas, escrevo. A minha escrita é livre, baseada, inclusive, numa das propostas do seu livro "A produção de textos na escola".
Um grande abraço. Nos encontramos por aqui.
Veja vc quanta alegria podemos ir tendo na vida com esses encontros quase inesperados!
Fico feliz e, sobretudo agradecido pelo que vc me diz. Tudo me enobrece e me dá mais estímulos para prosseguir , escrevendo e tentando alimentar os sonhos e o fazer profissional e humano de todos nós, educadores, que lidamos com o ensino da nossa língua.
De onde vc é?
Convido vc a fazer parte deste nosso espaço coletivo de conversas tão íntimas e tão preciosas. Convido também a lançar aqui suas ideias, seus escritos, suas palavras...
Ate a próxima!
Muitos abraços,
Gil.
Li um de seus livros na minha formação acadêmica e nunca mais me esqueci das propostas de escrita e leitura que você sugere. A minha prática como professora é baseada, em grande parte, nos seus postulados. Fico extremamente feliz em poder manter contato com um escritor que contribuiu para a minha formação. Obrigada. Eliana Sausmickt
Agradeço a atenciosa manifestação sobre seu interesse. Depois que assistir ao filme - ou ler o livro- conte para a gente como foi.
Grande abraço,
Gil.
Como vc resume bem, este filme, embora recente, já é um clássico, uma obra de arte. Concordo.
Se puder, veja o livro também.
Fico pensando sobre o uso que podemos fazer do filme ou do livro com nossos alunos na nossa boa intenção de formar leitores. Vc se aventuraria em algo assim? O que acha?
Maior abraço,
Gil.
Como sempre vc se faz presente em belas e generosas palavras...Obri gado, querida. Espero que vc tenha logo a possibilidade de abrir as arestas dos seus sonhos em ambos, seja livro, seja filme. Quando acontecer, conte para a gente como foi tudo isso para vc, ok?
Até a próxima!
Melhor abraço,
Gil.
Como sempre você motiva-nos para a leitura e para os sonhos. Adorei o pedacinho do vídeo do filme e fiquei com vontade de vê-lo mas também de ler o livro. Obrigada por esses momentos de boas leituras.
Abraços d'além mar.
Manuela
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