Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro



Antonio Gil Neto

1.

"Mas quem pode livrar-se porventura dos laços que o amor arma brandamente?" (Camões)

São elas três graças, damas suspensas no tempo de areia. Umas Marias dentre tantas que dançam, emaranhando céus e geografias. (Poderiam ser estrelas, pirâmides…Fagulhas?) Estavam em viveza. No fluido, exato. Imersas. Simples de quem percebe o maduro de maçãs, a precisão de um revoar  de pássaros. (E outros pormenores que se vão tramando, armazenado-se no tapete das últimas agonias). Não precisam de espelhos, nem carecem de rezas. Se inventam que só. (Precisariam de relógios ou vão pelos disparos do agora?)

 

No acontecer -  a seis mãos, a meia dúzia de pés inquietos - lúdica inocência. Inteligente, esperançosa. E o aventurar-se, dar cordas ao destino. (A dúvida? Do avesso.)

 

Já tinham de esboços meticulosos vestido amoroso de cada uma. Iguais, quase. Para diferenciar, detalhes. Nuanças da espera, dos fios enlaçados de cada qual. (De singulares). Ora, um laço risonho pendido mais para a esquerda; um bordado completo de florinhas miúdas na pala ou uma cascata de babados feito melodias de seda por entoar. Fora as grinaldas. (Prontos para a folgança de arquiteturas.)

 

Nem há espaço para algo de devassidão e luxúria. ( Ainda). Não há quiprocó ou conselho que desvie o trio de desígnio certeiro: o casamenteiro. (O hoje é provisório. Sem bússolas. Some a olhos de amor).

 

Feito oferendas, fases de luas,  se suportavam, se encantavam. Mesmo diapasão e tons. Irmãs, só dos delírios comuns. (Poderá haver o pacto na cegueira de sentimentos?)

 

Na quadrilha a sintaxe ia para o perfeito. Haveria correspondência de exatidões. "Fulana ama fulano. Beltrana ama Beltrano. Cicrana ama Cicrano". E vice versa. Rumo a algum feliz para sempre. (Quem sabe o fim de cada história? De um começo, mil desfechos ...)

 

Mas, elas - arredias, alheias - lustram seus castelos,  bordam grãos, drapeiam fantasias, recortando belezas, emoldurando sonhos brotados de palavras palpitadas. (Sei: com pequenas ilusões nem se brinca!) Mas eis que a vida serpenteia, rodeia e corisca, invade sorrateira os impensados e refaz dança e melodia, pula muros, zune em direção ao futuro que vira presente em si, no percurso. Em rumos passados.

 

Elas agora pisam nuvens. Tudo se mescla e explodirá. (Um prenúncio?) Nem notam de outros ciclos, outras Marias que vivem abruptas de pé no chão, ferindo-se em crudezas e dó. Vivem o néctar da graça. Da ventura. ( Ea entrega? Catedral de vidro em noites de verão.)

 

Elas se sabem envoltas de riso e luz. Crispam breves alegriazinhas. Vivem de pintar olhos e boca de atormentadas cores.  Nem sabem de outro enigma se instalando no jorro do inesperado. Ouvem latidos e o ciciar de cigarra. Cantam o que vem dos fios pendidos nos ouvidos. Mas não pressentem feitios, algum ziguezaguear de destino.

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Ele já está ali – por dissonante caminhos (secreto?) - protagonista da trama que não se conhece, mas já intensa. ( O que virá?) Um par de olhos agudos perscruta o zunido da areia, do vento.

 

 

 


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Comentários   

 
0 #4 Antonio Gil Neto 11-07-2012 11:50
Maria Manuela,

Na verdade esta escultura é da mitologia grega que, recortada foi para o mundo da minha inspiração nascida em palavras... Pois , este episódio terá continuidade, como um ligeira novelinha, ou melhor dizendo, um folhentinzinho. .. O que será que vai acontecer? Estou aqui tramando os movimentos nas palavras que brincam de criar...

Fico muito mais feliz ainda quando vc me diz que está tomando notas para aplicar nas suas aulas. O que vc pensa fazer? Fico deveras curioso... E lhe digo que fico mais que envaidecido em poder ser algo inspirador para vc. E também deixo minha dose de agradecimento tão necessário.

Monte de abraços,
Gil.
 
 
0 #3 Maria Manuela Dias dos Santos 09-07-2012 13:33
Olá Gil!
Que leitura linda e rica você faz da escultura na areia. Posso dizer escultura?
Pode ser uma bela motivação para os alunos. Vou tomando nota de tudo para aplicar nas minhas aulas. Você é a minha fonte de inspiração. E sinto-me muito emocionada cada vez que leio as palavras de você. Não me canso de lhe dizer muito obrigada por cada vez que me faz crescer em sabedoria.
Forte abraço!
Manuela
 
 
+1 #2 Antonio Gil Neto 09-07-2012 07:42
Maria José,

Bem que sabia de seu encantamento pelas palavras!
Eis que agora me encontro com essa sua lida com elas de um modo tão especial! Tão particular e encantador!
Que lindo vc nos escreve, Maria José! Nos toca e nos guia em emoções!
Gostei sobretudo do seu diálogo com o texto, o que gera um texto seu , próprio e novinho em folha para nos encantar - como vc diz - com palavras escancaradas ou misteriosas.
Que vc volte novamente com suas boas audácias... Que vc retorne por aqui com seus pés pisados de nuvens...
No mais , obrigado pelo carinho.
Maior abraço,
Gil.
 
 
0 #1 Maria José Pereira de Jesus Silva 05-07-2012 23:58
Oi Gil,

Aqui estou. Porque é sempre uma alegria ler o que escreve, vou criando coragem para comentá-los, porque até tenho receio de falar bobagem, tamanha a riqueza que são seus textos. Mas hoje ando meio audiciosa e acho q presunçosa também, porque me vi numa dessas três Marias. Meio arredia, alheia, tentando sim lustrar castelos, drapear fantasias, emoldurar sonhos e até pisar em nuvens.

Bem... Coisas de Marias, ou coisas de textos que nos elevam pelas palavras e acertam nossa alma. Quem bom ler este texto, meio escancarado, meio misterioso... Estou certa GIl, ou não? Bem, foi esta impressão que tive. Vou ler mais uma vez, quem sabe não consigo pisar nuvens.....

Um abraço,
MAria
 






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