Antonio Gil Neto
1. (Clarice)
“Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas”.
Em outros tempos – e de puríssima ilusão – Clarice estaria na zona sul do Rio de Janeiro em um apartamento singelo com vista para o livre do mar. Numa parede cinza escuro salpicariam seus quadros. Manteria o escrever com o coração que pulsa entre o inocente e o selvagem. Talvez o cigarro seria banido dos seus inquietos desejos. Daria mais corpo ao som de músicas clássicas em volumes de veludo e pétalas exalando no aposento, em horas de criação. Ao lado da janela, ao fundo um vaso de dálias multicoloridas, uma explosão de rosas ou uma solitária orquídea desenharia o espaço fechado e passearia pelo olhar escritor absorto, envolto pelas palavras em seu estado de rascunho. Ela pintaria mais. Muito mais. Haveria um notebook ocupando o lugar e movimentos ao invés da leve e portátil Olympia intercalando-se aos movimentos do escrever. Apoiado ao colo ou em uma das mesas dispersas abrigando a volúpia criadora. O café permaneceria sempre à mão e em miúdos goles de arejamentos entre o inspirar-se e o fertilizar das palavras. A elegância também se emolduraria no verdor do seu olhar de mar. Claríssimo.
Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo quero pegar. Ás vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos. (2)
A menina estrangeira que se afeiçoara ao Brasil de corpo, alma e linguagem guardaria intacto algo do seu caminhar pelas ruas do Recife e suas aulas de piano no seu habitat carioca. Haveria um conjunto de escritos em que rememoraria a infância nordestina, o valsear pelo mundo e sua plenitude no Rio. Retomaria, em revisões, seus escritos em andamentos com o quais não estaria satisfeita. Faria inúmeras alterações nos textos e trocaria de titulo pela segunda ou terceira vez. Viajaria pouco. De Ulisses ficaria uma imagem em branco e preto emoldurada em prata na cabeceira da cama. Livros estariam espalhados e a maioria acomodados para um despertar veloz. Um chamariz de curiosidade infantil e plena. Saborosa. Clarice sendo Clarice estaria em estado de graças sempre a descobrir o mundo pelas palavras. Sobretudo pela sua íntima estranheza a elas.
Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no fundo do poço. (1)
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento. (2)
Quanto ao livro, interrompi-o porque achei que não estava atingindo o que eu queria atingir. Não posso publicá-lo como está. Ou não o publico ou resolvo trabalhar nele. Talvez daqui a uns meses eu trabalhe no Objeto Gritante. (3)
Eu trabalhei três anos em água viva. Antes ele tinha 280 páginas. E nesses três anos eu fui podando, podando, para que nenhuma palavra fosse vazia, para que toda palavra tivesse alguma coisa a dizer. Por isso ele é denso. Foi muito difícil de escrever. Fui reescrevendo, reescrevendo. (2)
Eu creio na inspiração e creio no trabalho. Paul Valéry disse que os dois primeiros versos são dados pelos deuses e o resto é trabalho humano. Às vezes acordo no meio da noite com uma frase na cabeça, levanto-me, anoto-a e volto a dormir. Carlos Drummond de Andrade me disse uma vez que Manuel Bandeira não sei se escreveu ou disse que até para atravessar a rua no momento certo era preciso inspiração. Às vezes escrevo de um jato, às vezes lenta e progressivamente. A Maçã no Escuro escrevi-a sentada no sofá da sala, com a máquina no colo, para que os meus filhos não tivessem junto a si uma escritora e sim uma mãe acessível. Escrevi esse livro em três anos e fiz dele 11 cópias diferentes, porque eu sentia as coisas em mim e elas não saíam de mim. Na 11ª cópia consegui dizer o que queria. (2)
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo. Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope. (4)
(De puro amor ouso recriar tramas descartáveis como se um estatuto do imaginário povoasse minha mente. Recomponho identidades em paralelos felizes. Vivo em rascunhos. Diluo-me do essencial e respiro um fôlego a mais. Balanço-me no tempo para brincar com o mais sério das palavras. Sua eternidade na existência. Seu destino sagrado e secreto. Uma eternidade que renasce dos sopros criadores. Esse fogo que arde no humano e que lateja em cada um de nós. Ah! Essas palavras em aberto!).
1) Um Sopro de Vida. (2) Cadernos de Literatura Brasileira, IMS. (3) Remate de Males, Unicamp. (4) A Descoberta do Mundo.
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AS marcas da aprendizagem, meus alicerces.
Antonio Gil Neto
“Todos os gêneros possuem suas normas e, em princípio, seria necessário
subordinarmo-nos a essas regras para os fazer bem”.
(Rosa Montero)
Muitas
vezes me perco nessa alcunha que me coloco: parceiro mais experiente. Em quê?
Por responsabilidade profissional tenho de ser esse parceiro, mais experiente. Que
se faz cotidianamente por mim mesmo no meu fazer miúdo e interminável. Estudei,
tenho mais vivências e tempo nas costas. Sou um animal sintático e híbrido.
Condenso sonhos e compromissos. Muitas vezes mergulho em situações anunciadas.
Tenho que aprender o mais rápido possível no aprender fazendo. Considero-me bom
pesquisador. Vou acertando as arestas naquilo que não vai dando certo. Quando
dou com burros n’água, inauguro voo e vento e escolhas. Aprendo entre erros e
acertos ainda. Aceito palavras informes, vislumbro madrugadas ardendo em fogo.
Ressurjo na adequação deles. Vou sinalizando-me em aprendizagens. Vou
diagnosticando. No processo de ver, rever, alicerço-me.
O
trabalho com os gêneros textuais tem me ajudado então. Cresce sem atingir as
estrelas. Que não é meu domínio. O meu é arado a semear palavras. Quando os alunos
reconhecem o gênero em todas a suas artimanhas, se espelham no dizer das
palavras entranhadas e o produzem em fantasias
da sua verdadeira relação com a vida que pulsa e como manda o figurino ocorrem
boas avaliações, bons desempenhos. Meus dias não são cegos. Reluzem o avesso
das frases a cumprirem seus destinos.
No
mais é jogo de escrituras direto. Informo-me no jogo. Vigio-me nisso. Posiciono-me
como quem critica o texto produzido frente ao que foi encomendado, solicitado. Indago-me
como quem conversa com o outro lado do rio. Atravesso nos olhos o que ainda não
conheci. Procuro cada vez mais explicitar e cuidar disso. O meu encomendado, o
combinado por escrito precisa ser considerado com o que dá corpo e alma ao meu
bilhete. Mínimo diálogo. Para orientar tem que buscar a objetividade e a
substância possível da proposta. Sabemos disso; há espaços subjetivos, indeléveis
e pungentes. E que ele inaugura indagações, descobertas e que invade a curiosidade
cognitiva dos alunos para visitar as próximas produções.
Talvez,
depois de boa temporada de ler, escrever e rever os textos à luz das minhas orientações
que vão alicerçando aprimoramentos o meu aluno obtenha estratégias textuais que
se incorporarão em todo o momento que se colocar a escrever algum gênero para o
leitor fugaz, esse vivente que mora em nós e nos faz autor. Mapas por
desvendar.
Fico
pensando em que movimento me encontro nesse fazer. Recolho-me nesse mirante.
Tenho
incorporado algumas estratégias na ação de movimentar o foro íntimo da escrita
dos meus alunos. Ou seja, aprimoro-me e me governo através dessas ações e aprimoramentos
paralelos e que em mim ecoam. Vestígios do que brilhará.
Tenho
procurado em exercícios garimpar um bilhete que por sua performance clara e bem
elaborada funcione, constitua claramente a situação de interlocução entre o meu
aluno-autor e seus prováveis leitores, entre eles e eu. Uma estratégia de colaboração
e mútuas responsabilidades. Assim, as palavras não me embaraçam. Deixa sulco
suaves e desejam permanecer.
Tenho
procurado verificar nas mínimas linhas o que meu recado orientador por escrito retorna,
retoma do que foi solicitado e combinado. Busco o respaldo do que faz produzir
mais. E o que as minhas linhas e entrelinhas escassas explicitam, indicam e
promovem quando o meu aluno-autor envereda-se nas façanhas de reescrever. Por
vezes o reescrever é trabalho de tinta a desfazer-se em águas de chuva leve.
Por vezes é tear que tece e aflora o fio e a peça que será útil.
Mas
uma pergunta perambula nessa meu fazer: o que aluno diz e como diz? Em que
tempo, de que modo antecipo seu futuro?
No
mais me imprimo em instância em que o meu bilhete me interroga, me persegue.
Num instante ele deixa se ser orientador para problematizar-me. Faz perguntas
poucas, mas precisa dar o salto para o orientar de fato. Colocar o alunos nas
trilhas de rever, rever, rever. Nessa hora fico imaginando o que cairá bem no
fazer do meu aluno. No seu momento, nas suas possibilidades. Sempre tenho que
deixar iluminado no meu recado algum “como fazer.” Oferta calculada.
Equacionada, pesada e medida. Raiz e flor. Isso é prático e concreto. Surge de
cada texto e volta para ele. Isso tem sido meu estudo, minha entrega no agora.
Envolvo
meu coração em frases desbravadas. Corrijo-me em afetos e rascunhos repartidos
que em dia comum atingirão as estrelas.
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ainda em busca de
estratégia eficaz : arestas e
resultados.
Antonio Gil Neto
“Eu trabalhei três anos em Água Viva.(...) E nesses três anos fui
podando, podando para que nenhuma palavra fosse vazia. Para que toda palavra tivesse
alguma coisa a dizer. Por isso ele é denso. Foi muito difícil de escrever. Fui
reescrevendo, reescrevendo”. (Clarice Lispector)
Ultimamente busco arestas
mais os resultados para esse bilhete que interfere e cuida. Até que ponto
considera o que enuncia a tarefa em jogo? Até que ponto desponta fios claros de
avaliar o que se propõe e o que se exige? Fico entre a água e o olhar...
Não quero que algo
desmorone. Um bilhete ou alguns deles não darão conta de transformar. Sua
prática e seu destino sim. Penso que o aluno ainda haverá de exercitar o que lhe
abarca neste modo de escrever e tornar-se compreensível por escrito. Ainda lhe
é difícil selecionar, buscar informações num texto, abstrair, reformar primeiros
olhares em amadurecimentos e usufruir de outras potencialidades instaladas nas
linhas submersas. E imaginar, realizar inferências, o que é fundamental e o que
se traduz como compreensão e atribuição de sentido ao dito na transparência de
um abraço de palavras.
Isso posso dizer quase
soletrando: todas as áreas que usufruem da leitura e escrita poderiam se dedicar
substancialmente a um trabalho com seus
gêneros mais apropriados ou presentes nos mecanismos das aulas e da vida,
que é a matéria que pulsa abrupta e
continuamente. Não é um fazer mudo, exclusivo das aulas de língua portuguesa.
Como um respiro, um cântico ainda digo pausadamente: a leitura da literatura
também é investimento nesse sentido. Tenho dito. E feito.
Sei que avancei. Minha turma
comigo desabrocha, estala, acontece. Esses meus breves escritos, como ritos acoplados
aos textos gerados de primeira monta vão além de apontar problemas gerais do
texto, sua ortografia, pontuação, algo de concordâncias. Quero mais e busco o reconhecimento
e a azáfama do escrever que percebe a presença ausente do interlocutor. O anônimo
e alvo. Declaro-me em palavras poucas e abertas um alguém interessado e
incomodado nesse projeto de levar cada aluno a assumir de vez seu papel de
autor. Seu desejo, suas escolhas. Seu domínio de sintaxes e expressão.
Tenho ficado bem feliz
quando alguns alunos reelaboram diferentes versões para um primeiro texto. Numa
segunda versão qualifica-se, aprimora-se em espelhamento no que se fez de rascunho.
A terceira versão quase se ensaia como supostamente definitiva. Mas, semeia-se
em enganos. Sempre haverá outras possibilidades para mudar, alterar, revolver o
que é matéria-prima. Essa é sina da nossa língua. Oferece-nos infinitas possibilidades
de arranjos e sentidos. Cada palavra, ancestralmente inventada, renasce e
renova-se matizada de outras palavras. Sobrevive ao Tempo. Inaugura-se sempre.
Moto contínuo.
Ainda não rascunhei
hipótese, mas sei que lanço espaço de aprendizagens.
Com quais saberes cada aluno
consegue acolher, decifrar e agir frente ao meu condensado bilhete, impregnado
de resumidos instrumentos oferecidos ao modificar dos feitios e intentos de
cada texto? Apropria-se, revê sua elaboração primeira com distanciamento mínimo
e crítico? Empresta o aprendido em outras produções? Até que ponto concretiza dados
elementares para iluminar sua tarefa de editar, rever, reescrever, aprimorar um
escrito? Até que ponto se pergunta para quem escreve, com quais objetivos e até
que ponto faz de fato escolhas linguísticas cada vez mais apropriadas?
Tenho procurado dialogar no
meu campo de ler , analisar, desmanchar. Dele colho e finco sementes de
criticidade e movimento para cada aluno. Tenho muita dificuldade com o tempo dos
relógios. A escola ainda se prende na estrutura das correções e dos modelos de
uma gramática normativa e imperiosa.
Algo que se assemelha ao que é certo ou errado no absoluto. Eu me
desamarro, vou me desprendendo aos poucos. Vivo a língua viva das palavras em
jogo desde o sol mostrando frestas de luz , o fogo iluminando as paredes das
cavernas ao agora com palavras imantadas em luz. Faço muitos minutos absorverem
horas e horas de sentido.
Meu tempo é de acrescentar, criar, fruir, semear.
Não é algo que se repete. Risca o vivo da memória.
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EM busca de estratégia eficaz : escrita e que
oriente.
Antonio Gil Neto
“Notei que descobrir novos lados de uma palavra era o mesmo que descobrir novos lados do Ser.” ( Manoel de Barros)
 Talvez
ande a buscar os limites entre o que ensino e o que os meus alunos aprendem por
si.
Mas não posso fugir de tecer, sovar e tingir esse lugar que se instala naquele que escreve.
Não amargarei meu coração em descrenças. Como disse o poeta e me digo em voz e
vez, lanço-me às âncoras e às promessas. Onde há a fome e a sede. E lembranças
inexistentes. Antevejo imagens, alaridos.
O
que me resta em grande paisagem vivida? Busco frutos desse mirante na paisagem
conquistada. Há horizontes e o saber ao fundo do Conhecimento. Nem preciso saber
dos ângulos de voos das aves ou dos aromas dos lírios! Preciso me entregar à
rudeza das palavras no descampado da escrita. Elas que bailam nos pensamentos,
perfeitas.
Arrasto-me
nessas palavras a respingar poesia e lamento. Mas refletem verdade mais pura,
ímpar. E o intento a se arriscar. A forjar o melhor de cada estratégia. E encontrar
a eficaz.
Invisto
na reescrita do que meus alunos confiam ao papel e a mim. Escrevem dos seus selvagens corações. Isso sei de agora. Acredito que esse
trabalho possa fazê-los senhores das suas palavras. Já fiz de tudo. De cópias de
textos modelares ao passar a limpo os textos impregnados das correções
pungentemente vermelhas, latejando erros, mordiscando impossibilidades.
Busco
porto de estar no meu lugar e apontar luzes ao aluno que sabe das dores do
mundo, livra-se dos espantos, diz-se. Diz e escreve. Reescreve, escolhe, seleciona,
revê e aprimora seu enlaçamento de frases. Aprimora-se.
Aposto
no reescrever. Ora em coletivo, ora na íntima e particular hora. E num tempo escasso e
descoberto para ler textos guiados e despertos das solidões. Acolhido com mapa
do experienciado tinjo de bússolas a tarefa encaminhada, o jogo do escrever e
produzir um corpo de palavras em seu gênero mais vívido. Não haverá desatino ou
desencanto que não leve ao adiante. Tudo se molda em capturas.
No resumo da ópera: no bordado de frases, em apelo à geografia da primeira versão, uma espécie de bilhete, como se tivesse algum sobrenome. Bilhete orientador, ensinador,
ensinante? Instrutor, guia, suporte? Inauguraria assim um outro gênero pedagógico?
Pode ser... Afinal não se trata de um bilhete desses convencionais, corriqueiros.
É mais e é diferente. Tem outras intenções, desdobramentos e atitudes.
Por
ele me exercito em vislumbres. Vou-me revisando. Adentro no escrever de cada aluno
e, no singular, adianto-lhe pistas, favoreço
buscas, sugiro procedimentos. Mas, me pergunto: como ele recebe o bilhete sui generis? O que dele abarca? O que
lhe move? Sei que um tecido de palavras assim não sobrevive apenas lançado ao
papel. Tenho que dar-lhe vida, a graça em dialogar com cada versão do escrito e
seu autor. Assim se cumpre o destino de orientar de fato e prosseguir.
Também
aprendo com isso. Insólito, perturbador. Nem sempre posso escrever à vontade.
Tenho limites, tenho o compromisso do tempo com a experiência viva.
O
que será que um bilhete orienta, aclara e incomoda de fato? O que promove em
próximas escrituras? Fico pensando que ele precisa ser alavanca, andaime, impulso.
Não pode ser algo burocrático e que precise de tradução simultânea. Sua
validade se faz quando ocorre interlocuções reais. Entre meus alunos e meu
feito educador que impulsiona aprendizagens. Entre nós e o texto, em estado de
possibilidades. E quando posso ver claramente nas segunda e terceiras versões e
nos textos inéditos o que pude conduzir, mover. Complexo? Vejo que deu certo
quando o aluno revê procedimentos da escrita
e executa operações linguísticas que articulem outras ideias em palavras.
Mudanças, novas estações.
Fico
alerta ainda mais. Sei que esse é ponto fundamental do mecanismo de escrever
bilhetes sobre e a partir de cada texto esculpido: gerar processos. Vejo assim
o trabalho. Reinventando-se. Envolvo-me de palavras para descobrir seus caminhos.
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despertar mãos que
escrevem de selvagens corações.
Antonio Gil Neto
“Sinto-me
tão cansado de sofrer, tão cansado! - algum dia, em alguma parte
Hei de
lançar também as âncoras das promessas
Mas no meu
coração intranquilo não há senão fome e sede”
(in
Solilóquio, Vinicius de Moraes)
Imaginando, à deriva, cansado do sempre, busco na estrada
algum sol e alguns pontos ensombrados. Caminho devagar e firme no que possa me
levar à relva e ao rio. Abrigo-me em cautelas e fazeres que se refazem e se
aperfeiçoam em si mesmos. Tenho lembranças renitentes. O que meus alunos
esperariam de mim se soubessem ao certo das cores do futuro?
No
teatro de mim mesmo não me julgo ou me esbofeteio. Inauguro-me em esperanças,
promessas. Esboço paisagens claras mesmo
em caminhos sombrios. Me apego em âncoras no ar. Avermelho-me.
Ignoro
alguma presença e me diferencio de mim. Falo sozinho do que me acompanha. Meu
monólogo de mim sou eu em voz alta que anuncia outrem. Dialogo com minha alma e com as minhas diferenças.
Sem ilusões, com meus intentos. Coerência? Nem preciso dela agora. Mergulho em
planos, esboços, em fruição e puro descobrir. Perscruto-me.
Derramo
nas cortinas do pensar as páginas, as palavras que me acompanham nessa tarefa
de escrever a vida errada, indefinida por linhas retas e objetivas.
Reforço-me
do papel de realizar mediações: o escritor, o intérprete e artesão das palavras
e o leitor, esse estranho íntimo que mora em nós e nos espelha em luzes sem
fim.
Na
busca de estreiteza direta e simples com meus alunos, com suas escrituras me reescrevo em pedagogias renovadas, as que se
arejam e fluem para alguma pequena fonte de desejos. Abro-me diante do outro
que sou eu.
O
que é estar migrante nesse lugar por vezes tão desconfortável? Quem é esse
parceiro mais experiente que acompanha essas revelações em palavras, em percursos
de pequeninos rios que ainda não atingiram mares e a imensidão? Como me permito ouvinte, essa voz dupla que acompanha
e aponta o corte certo, a envergadura, o tom, o viés, o toque sutil e adequado?
Quantos leitores guardo em mim? Como
posso devolver ao meu aluno de primeira lavra o acesso ao que lhe passa a alma?
Procuro
vestir-lhe narrador, nem sempre na primeira pessoa. Mas o que direciona o
discurso ao outro em voz própria ou emprestada, e digna e autoral, como se estivesse
revelando ao tempo o que não permanece em silêncios?
Particularmente
persigo no meu trabalho de ensinar a lida com as palavras esse legítimo recurso
de ser protagonista, autor, incendiador de ideias.
Persigo
o coração selvagem das mãos que escrevem, escolhem, arranjam e cobrem os sentimentos com palavras em harmonia e fôlego. Afago o observar, a clareza, a lógica, o
nexo entre as partes e até mesmo a possibilidade de traduzir a descrição de algo
como uma paisagem.
Li
ou sonhei e revelo-me em fazer: o que não podemos dizer, podemos escrever.
Preciso fazer mais do que é possível ser dito. Os acontecidos se guardam em
esperas e saber. Adentro-me no torvelinho das palavras que são nossas: minhas,
dos meus alunos e de todos nós. Aprofundei-me em originalidades, confrontos e afeto.
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Antonio Gil Neto
Eis aqui, conforme o prometido no sétimo parágrafo do texto anterior, os livros de olhos compridos que olham para mim em lombada ou capa. Aventure-se nesse desenho de leituras.
E se Amanhã o Medo, de Ondjaki, Editora Língua Geral Livros
Esse pequeno livro com mais de 15 contos do escritor de Luanda me surpreende a cada leitura como miniaturas de um imaginário cotidiano e poético, fantástico e às vezes absurdo. Os protagonistas são figuras que refletem os aspectos dramáticos da vida numa serenidade poética que inquieta. Já li a primeira narrativa, A Libélula, três vezes. Simples e surpreendente. A contida história de um encontro fortuito entre um médico e uma mulher que é atraída ao portão da casa do homem pela voz dolente de Adriana Calcanhoto, que o doutor estava a escutar: O mágico cede lugar a uma observação detalhista, miniatural. A atmosfera formada pelos objetos de cena que constrói o cenário vivo no qual a trama, mais banal do que sublime, se desenrola rica de subtextos. Imagino o que ainda lerei.
A contadora de filmes, de Hernán Rivera Letelier, Editora Cosac Naify
Gostei da capa e, sobretudo, do texto de apresentação do nosso Walter Salles. Quase acabei a história, mais que singela e deliciosa: no final dos anos 50, Maria Margarita é a filha menor de uma família de mineiros, para quem a sessão de cinema dos domingos – única diversão do povoado – é ocasião para descobrir a última obra-prima de Chaplin, as tramas lacrimejantes dos filmes mexicanos, a saia esvoaçante de Marilyn Monroe ou as novas aventuras de John Wayne. Um acidente de trabalho sofrido pelo pai corta a renda familiar pela metade, e um só dos filhos será escolhido para ir ao cinema aos domingos. A missão é contar a história do filme para o resto da família. E, na espécie de concurso promovido pelo pai, Maria Margarita é quem se sai melhor e descobre o talento que tem para narrar. Estou adiando o último capitulo deste livro mais que espetacular. Já voltei trechos e páginas algumas vezes de puro deleite. Não quero abandonar a atmosfera criada. Inspiradora e certeira, que poetiza sobre o poder e a necessidade da imaginação e da ficção. Contar a vida é como contar um sonho ou como contar um filme. É mesmo.
A memória de nossas memória, Nicole Krauss, Editora Companhia da Letras

Estou apenas no começo. Li precisamente 49 páginas. Fixei numa escrivaninha. A partir dela, histórias de personagens tão diversos se formam. Passei pela memória e pelo esquecimento, esperança e remorso, passado e futuro. É a narrativa de uma reclusa autora nova-iorquina que herda o móvel de um jovem poeta chileno torturado e morto durante a ditadura de Pinochet. Mas já sei que em Londres haverá o viúvo de outra escritora cujo passado ela faz questão de esquecer. E em Jerusalém, um antiquário que sobreviveu à sanha genocida dos nazistas passa boa parte do seu tempo tentando reconstruir, por meio de objetos coletados nos quatro cantos do mundo, o idílio de uma vida familiar há muito desaparecida. Li isso numa resenha antes de chegar nesse momento leitor. Já senti se esboçar a profunda reflexão sobre o que deixamos para trás ao longo da vida. Prosseguirei. Sinto ares de uma melancolia dolorosa a se entranhar nos ossos.
A borra do café, de Mario Benedetti, Editora Alfaguara
Nesse, ando pela metade. Vou e volto. Leio e releio trechos aqui e acolá. Talvez quisesse ter escrito este texto. Uma joia. Com saudade de algo maravilhoso que já aconteceu e ainda pode acontecer. Às vezes esqueço-o num canto e depois recomeço a ler um trecho que já li, inteiro-me do que já havia sentido e vou adiante. É mais um livro tocante. Parece uma conversa que se estende, tendo a infância como base. O personagem Cláudio percorre os bairros de Montevidéu, em sua iniciação adolescente, graças à mobilidade doméstica da família, que mudava de lugar constantemente. Penso que há toques de memória e invenção mesclados de ilusão e fantasia no que seria uma biografia. As palavras estão impregnadas de passado como se fossem a vida em si, em que se vive e que nunca se abandona. As lembranças da infância são surpresas habilidosas de lirismo e humor a quem se presenteia leituras: as brincadeiras de rua com os amigos, as constantes mudanças de bairro com a família, a trágica morte da mãe e a descoberta do amor e do sexo. São cotidianos singelos, transparentes, líricos, contados com uma poesia encrustada na obra narrativa. O livro para mim é cálido como uma manhã de primavera. Dessas que a gente precisa de quando em vez. Estou a ler no quando em vez para deixar a vida com frestas de manhã de sol. E de primavera. Pouco motivo?
Casados com Paris, de Paula McLain, Editora Nova Fronteira
Ainda não entrei no que parece ser o miolo desse romance que dá cor ao encontro amoroso entre Ernest Hemingway e Hadley Richardson. Acabo de entrar no cenário parisiense, mas há muito para ler nesse sentido, sinto. Acabo de ler a sequência onde tudo começa, numa Chicago regada a muito álcool e jazz , no sonho de viver uma “dolce vida” em Roma. É aí que a história do casal acontece, contada pela personagem Hadley. Fico imaginando, pelo que antecipa a trama, que logo andarei por Paris, pelos tempos vividos à beira do Sena, na companhia de personagens como Gertrude Stein, Ezra Pound e Scott e Zelda Fitzgerald. O que tem me surpreendido até então é o fato de a escritora esclarecer que o livro apresenta personagens ficcionais. Percebe-se com nitidez sua profunda pesquisa histórica sobre o casal Hemingway e as pessoas que os cercaram. Somos conduzidos por entre as pessoas, pelos lugares pelos acontecimentos com pura emoção. Na verdade fazemos uma delicada viagem pelos anos 20, pelo cenário parisiense, pelos sentimentos humanos.
O céu dos suicidas, Ricardo Lísias, Editora Alfaguara
Achei bonita a capa, estranhei o título, o que dizia a 4ª capa, e me levei pelo estranhamento de o protagonista da ficção ter o nome do autor. Ando pelo começo. Já deixei-o no descanso mais de um mês. De vez em quando leio mais um pedaço. Tudo começa e parece motivar a trama pelo suicídio de André, amigo do personagem narrador, Lísias, o fictício, que é especialista em coleções (embora ele mesmo tenha encerrado seus arquivos de tampinhas e de selos ) e que narra a busca por determinadas respostas e, a partir delas, por uma espécie de redenção. Imbuído de responsabilidade pelo ocorrido, perturbado com o destino dos suicidas ficamos impregnados pela tristeza e pela ansiedade, entre o desespero e a confusão. Ainda vou continuar lendo o livro numa tarde dessas. Mas, ensolarada. Fico com uma ideia pendente: até que ponto o que se escreve tem de real e de ficção?
Paris não tem fim, de Enrique Vila-Matas, Editora Cosac&Naify
Outro livro com Paris? Está certo que Paris é sempre Paris. Mas é puro acaso de acolhimento leitor. Talvez seja porque em ambos se presentifica a figura de Hemingway. Quis fazer um casadinho com o “Casados com Paris”, pois ele estava dormindo aguardando sua vez de entrar em cena no meu baile. O livro, bem lembrando, é um divertido e melancólico relato ficcional e autobiográfico do espanhol Enrique Vila-Matas sobre o exílio voluntário de dois anos em que alugou, patrocinado por seus pais, a água-furtada de Marguerite Duras, durante o período da ditadura franquista. Artistas, escritores, cineastas, intelectuais e travestis exilados na capital francesa nos anos 1970 acompanham o jovem aprendiz de romancista pelas ruas, festas, cafés e livrarias em que se dá sua formação - ou "deformação", como sugere o texto de orelha de Cassiano Elek Machado. Devo falar que o que me pega de curiosidade e admiração é a forma como ele desenvolve as histórias. É brilhante o jeito como nos conduz pelo romance onde um autor é aficionado pelo seu autor favorito (Ernest Hemingway) e tenta sobreviver numa Paris que já não é mais a mesma coisa de quando seu ídolo da juventude vivia nela.
Em tempo: li que na Catalunha (Espanha), onde a celebração ao livro se originou e como diz a tradição, no dia 23 de abril dá-se uma rosa ao comprador de um livro.
Como quem oferece pétalas de uma rosa leitora, ofereço a quem por aqui passar com olhar de curiosidade e esperança um pouco desse meu conjunto de livros que ora se presentifica em minha vida. Quem sabe você não conduzirá um deles a morar em seu movimento leitor?
Feliz todo o dia do livro!
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